A Razão de Ser dos Jogos
FERNANDO ALMEIDA
Como veterano esportista, compartilhei com brasileiros e cariocas a alegria na escolha do Brasil e do Rio de Janeiro para os eventos máximos nesta atividade humana milenar. Entretanto, na condição de formulador dos caminhos que devemos seguir para a sobrevivência, seja do estado ou do país, e de autor de três livros sobre desenvolvimento sustentável, a sensação, por um lado, e a perspectiva, por outro, são de aguda preocupação.
Não vi nem ouvi, tanto no âmbito local quando nacional, qualquer menção, mesmo nesta etapa das eleições, de como os Jogos podem induzir alterações reais e duradouras do nosso cotidiano para melhor.
Exemplos não faltam. Sidney construiu o seu estádio de abertura e encerramento dos Jogos de 2000 em cima de um aterro sanitário e industrial totalmente recuperado. Barcelona, cidade de importância relativa no cenário mundial, saltou e se fixou como destino obrigatório do turista à Europa a partir dos Jogos de 1992.
No Rio, como paralelo, o que ficou de herança dos Jogos Pan-Americanos de 2007? Estruturas esportivas de porte com vazios de uso e conservação precária. O que foi feito com a Vila Olímpica em Jacarepaguá? O sistema lagunar daquela baixada foi recuperado? Não, permanece longe da restauração, com contínua carga de esgoto não tratado e progressivo assoreamento. O sistema de transporte teve alguma evolução que minimize o vai e vem cada dia mais penoso do carioca? A segurança tão badalada e dispendiosa à época colaborou de forma significativa para a redução dos índices de criminalidade?
Guardadas as devidas diferenças históricas e institucionais, me vem a reflexão que compara um momento contraditório, a Copa de 70. A melhor seleção de jogadores que tivemos induziu uma euforia popular única, facilitada pela tecnologia de comunicação crescente. No entanto, por trás e por baixo, o regime político destruía as esperanças e a alegria de quem como eu tinha 18 anos.
Caso a Copa e as Olimpíadas não estimulem e alavanquem a profunda mudança, tanto de modelos de negócios quanto de políticas públicas, poderemos ganhar ambas as competições, mas não levaremos, sairemos fracassados. Neste caso, um fracasso anunciado de leviana euforia.
A corrida verde entre países já começou. A transição para uma economia de baixo carbono, o desenvolvimento e suprimento de tecnologias e soluções de alta eficiência e uso de recursos naturais, os subsídios ao transporte e construção sustentável e energias limpas, entre outros aspectos, determinarão os ganhadores e perdedores nessa olimpíada pela sobrevivência.
O presidente dos EUA, Barack Obama, declarou em julho de 2010 que continuarão agressivamente competindo para que os empregos (verdes) e indústrias americanas do futuro sejam todas em seu país, discurso na mesma linha do CEO da GE, Jeffrey Immelt, explicitado em março de 2010, num discurso em que falava pelo setor empresarial.
A China, nos últimos três anos, deu um salto de 35% para 50% de sua participação no mercado mundial de painéis solares e dobrou, em dois anos, sua participação em energia eólica. Os chineses investem hoje 21% do total mundial, US$162 bilhões, em energia limpa.
A Índia deverá lançar em 2011 um tablet a US$10 e a Coreia do Sul teve um crescimento de 249% de energia renovável nos últimos cinco anos, tendo lançado um plano quinquenal de criação de empregos verdes em 2009.
Todos os grandes eventos esportivos já há algumas décadas vêm buscando a inserção progressiva das práticas da sustentabilidade. Temos uma chance única de alavancarmos as duas competições neste paradigma. O tomador de decisão público ou privado, sem exceção, deverá utilizar o estado da arte das tecnologias, práticas e comportamentos para lidar com os serviços ambientais e recursos naturais, olhar não apenas para 2014 ou 2016 e sim para o legado dos Jogos em 2030 ou 2050 à população do entorno e da área de influência regional. E, finalmente, os recursos econômicos e financeiros devem ser utilizados com a mesma eficácia das tecnologias de ponta.
Os brasileiros têm uma janela de oportunidade única. Não podemos fechá-la.
FERNANDO ALMEIDA é consultor.
Artigo publicado originalmente no O Globo.